O editorial do jornal O Estado de S. Paulo, publicado nesta segunda-feira (2 de fevereiro de 2026), intitulado “O Executivo comanda cada vez menos”, critica a dificuldade do governo Lula em aprovar medidas provisórias e sua suposta fragilidade na relação com o Congresso Nacional. O jornal apresenta dados de uma pesquisa do site Poder 360 mostrando que apenas 21% das MPs do atual governo foram convertidas em lei, a pior taxa desde 2003. A partir disso, o texto constrói uma narrativa de que o Executivo estaria refém do Legislativo e sem capacidade de articular sua agenda.
O que o editorial omite, no entanto, é o principal fator que explica essa dinâmica: a entrega total do Orçamento federal ao Centrão durante o governo de Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem, para garantir apoio político e evitar um impeachment, transferiu o controle de bilhões de reais em emendas parlamentares — especialmente as chamadas emendas de relator (RP9) — para as mãos de líderes partidários. Esse mecanismo, criado informalmente como instrumento de ajuste técnico, foi desvirtuado e se tornou uma moeda de troca sem qualquer transparência ou critério técnico.
Com as emendas RP9, os parlamentares passaram a decidir diretamente a alocação de recursos do Orçamento da União, muitas vezes em benefício de suas bases eleitorais e interesses pessoais. O Executivo perdeu a capacidade de planejar investimentos e políticas públicas de acordo com as necessidades nacionais. O Orçamento deixou de ser um instrumento de planejamento estatal para se tornar um balcão de negócios políticos. Bolsonaro não apenas aceitou essa distorção como a aprofundou, pois precisava do apoio do Centrão para sobreviver politicamente diante da ameaça de processos de impeachment e da falta de uma base partidária sólida.
Quando Lula assumiu o governo em janeiro de 2023, encontrou essa estrutura já consolidada. O Congresso estava acostumado a mandar no Orçamento e não abriria mão desse poder facilmente. Para governar, Lula teve de negociar cada projeto com um parlamento empoderado e fisiológico, herdeiro direto do modelo criado por Bolsonaro. Apesar desse cenário adverso, o governo conseguiu aprovar marcos importantes, como a Reforma Tributária, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o novo arcabouço fiscal e a retomada de programas sociais. São vitórias significativas, especialmente diante de um Congresso majoritariamente conservador e refratário a pautas progressistas.
A taxa de conversão de MPs, portanto, não pode ser analisada fora desse contexto. Criticar o governo Lula por não aprovar todas as medidas provisórias que envia ao Congresso é ignorar que o Legislativo atual foi treinado para barganhar cada apoio. O baixo índice reflete menos a incompetência do Executivo e mais a resistência de um parlamento que se acostumou a controlar os recursos e a ditar as regras do jogo.
Ao omitir o papel de Bolsonaro na criação desse sistema, o editorial do Estadão comete uma grave desonestidade intelectual. Não se trata de um simples lapso, mas de uma escolha editorial que favorece uma narrativa política contra o governo Lula, ao mesmo tempo em que isenta o antecessor de sua responsabilidade direta pelo atual estado de coisas. A imprensa que se pretende séria deveria cobrar transparência e responsabilidade de todos os lados, e não apenas apontar o dedo para quem herdou o caos.
Além disso, o mesmo jornal que hoje critica a articulação de Lula silenciou durante os anos em que Bolsonaro desmontava o controle orçamentário do Executivo. Em vez de denunciar as emendas secretas e a falta de transparência, preferiu não se aprofundar no tema. Agora, colhe-se o que se plantou: um Congresso forte, sem compromisso com o interesse público, e um Executivo que precisa se desdobrar para governar.
O governo Lula tem buscado soluções para retomar o controle do Orçamento. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, tem atuado para impor limites às emendas parlamentares e exigir transparência na execução orçamentária. No entanto, enfrenta forte reação de parlamentares que não querem perder seus privilégios. A briga é difícil, mas necessária para a saúde democrática do país.
O editorial do Estadão termina em tom pessimista, mas deixa de apontar alternativas. A saída para o fortalecimento do Executivo passa por reformas estruturais: o fim das emendas de relator, a transparência total na execução orçamentária e a retomada do planejamento centralizado de investimentos. Enquanto isso não ocorrer, o Brasil continuará refém de um sistema que privilegia interesses pessoais em detrimento do bem comum.
Em vez de contribuir para esse debate, o editorial escolheu o caminho mais fácil: criticar o governo Lula sem contextualizar. O jornalismo de qualidade não pode se contentar com meias-verdades. O Brasil precisa de imprensa que investigue, que vá além das manchetes e que cobre responsabilidade de todos os governantes, sem exceção. O Estadão, ao omitir a herança maldita deixada por Bolsonaro, falha nessa missão.