A burrice e a má-fé que cercam a Lei Rouanet

Por Paulo Henrique Arantes

Wagner Moura, um dos maiores artistas brasileiros de seu tempo, resumiu com precisão um debate recorrente: quem nunca assimilou o sentido histórico da Lei Áurea dificilmente compreenderá a Lei Rouanet. Ao retomar essa constatação, o diretor de “Marighella” apenas reafirmou um dado objetivo da realidade.

Existem desvios na aplicação da Lei Rouanet? Se houver, devem ser investigados e punidos. Isso não invalida o princípio da norma, que é correto e necessário: fomentar a cultura e garantir sua sobrevivência. O que não se pode aceitar é o bloqueio ideológico de projetos culturais enquanto se liberam recursos públicos para iniciativas alinhadas ao armamentismo, inclusive com contrapartidas absurdas, como palestras sobre armas e munições para crianças e adolescentes — prática adotada durante o governo Bolsonaro.

Desde sua criação, ainda no governo Collor, a Lei Rouanet vem sendo alvo de distorções deliberadas – já escrevemos sobre isso neste espaço, e o momento requer rememoração.  Nos últimos anos, a norma passou a ser tratada como prova de um suposto “marxismo cultural”, construção ideológica sustentada mais por má-fé do que por fatos. Os dados da Fundação Getúlio Vargas desmontam essa narrativa: para cada real captado e executado via incentivo fiscal, a sociedade recebe de volta R$ 1,59 em atividade econômica.

Cultura é também economia. Como tal, exige políticas públicas. O advogado Fábio Cesnik, referência na área cultural, sintetizou esse ponto em conversa com este jornalista: “assim como a agricultura ou a indústria, a cultura precisa de fomento estatal. Basta comparar o Brasil de 25 anos atrás com o atual para perceber a expansão de museus, orquestras, festivais, teatros e exposições — crescimento diretamente ligado aos mecanismos de incentivo”.

Instituições como o Masp, a Pinacoteca, a Flip e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo não teriam a dimensão que alcançaram sem a Lei Rouanet. A própria restauração do Museu do Ipiranga foi financiada, em mais de 80%, por recursos captados via incentivo fiscal.

A hostilidade à Lei Rouanet e aos artistas que recorrem a ela tem origem menos contábil e mais ideológica. Governantes como Jair Bolsonaro sempre demonstraram desconforto com a produção cultural e com o pensamento crítico que dela emana. O debate chega ao absurdo quando artistas que se vangloriam de “não depender da Rouanet” recebem cachês milionários pagos diretamente por prefeituras, sem licitação e sem qualquer obrigação de prestação de contas. Nesse caso, o dinheiro público entra direto na conta — sem mediações, sem controle e sem contrapartidas sociais.

Maria Bethânia foi vítima desse ambiente de desinformação e distorção. Acusada falsamente de tentar captar R$ 1 milhão pela Lei Rouanet, foi alvo de uma campanha de ataques que ignorou os fatos. O projeto em questão, idealizado pelo cineasta Andrucha Waddington, previa a produção de vídeos com leitura de poemas, disponibilizados gratuitamente na internet, com foco na difusão da poesia. Bethânia seria apenas uma das participantes.

A desistência da artista ocorreu após a onda de insultos. Até hoje muitos fingem não compreender que os recursos captados remunerariam uma cadeia inteira de profissionais — diretores, técnicos, programadores, editores — e não apenas a intérprete.

A direita obtusa, bolsonarista antes de tudo, escolhe os melhores para tentar lhes assassinar a reputação. Fernanda Montenegro, por exemplo, foi alvo de ataques nas redes, com insinuações de privilégio e enriquecimento via Rouanet. Ignora-se que projetos ligados a ela envolvem formação cultural, circulação teatral e preservação da memória artística brasileira.

Chico Buarque é alvo recorrente de acusações de que “vive da Lei Rouanet”, o que é falso. Chico teve projetos aprovados no campo editorial e de preservação de acervo, muitos com captação parcial ou inexistente, e só. A associação entre sua posição política e a Lei Rouanet foi usada como instrumento de difamação.

Como explica Cesnik, quem utiliza a Lei Rouanet precisa apresentar um plano detalhado de uso dos recursos, respeitar limites de cachê, cumprir contrapartidas sociais e prestar contas rigorosas. Caso haja irregularidades, o dinheiro deve ser devolvido ao poder público. Nada disso é exigido quando cachês milionários são pagos diretamente por entes públicos, sem concorrência e sem transparência, prática muito difundida entre prefeituras alguns dos insuportáveis cantores sertanejos.

Uma campeã esquecida que derrotou o racismo e o machismo

Por Paulo Henrique Arantes

Os estádios de futebol – ou arenas, como se chamam hoje – são palcos do velho, porém muito vivo, preconceito contra negros, justamente eles, entre os quais está Pelé. A idolatria e a discriminação andam de mãos dadas, paradoxalmente, acrescidas do fanatismo que caracteriza boa parte dos torcedores. A temporada 2026 de ofensas racistas a atletas está aberta.

O racismo faz parte da história do esporte, assim como faz parte da História. Quando se manifesta no futebol torna-se ainda mais alarmante, pois o negro predomina não apenas nos campinhos de areia em favelas e subúrbios, mas nos grandes estádios onde brilharam, Pelé à frente, Domingos da Guia, Leônidas, Zizinho, Didi, Garrincha, Jairzinho, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e centenas de outros craques de pele escura. Igualmente a raça negra sobressai-se no futebol feminino, antes com craques como Marta e Formiga, hoje com Ludmila, mas o futebol de mulheres é relativamente recente e só agora começa a ganhar espaço no imaginário popular.

O que acontece com Vinícius Jr. na Europa – como num jogo da Copa do Rei, em janeiro – ocorre todo dia em gramados brasileiros e com jogadores brasileiros no Exterior, onde torcedores fanáticos não hesitam a exibir todo seu preconceito. Há quem relacione o racismo no futebol com o poder econômico, já que o preço dos ingressos atualmente é impeditivo para os mais pobres. Seriam racistas nossas elites econômicas? Bidu.

Um inestimável serviço ao país e à luta contra o racismo presta o projeto Observatório da Discriminação Racial no Futebol, trabalho coletivo pormenorizado que apura e divulga casos de preconceito no futebol e em outros esportes. Seus relatórios anuais são ricos em números e detalhes. O de 2023, último editado até aqui, nos dá conta de 250 casos de racismo no esporte brasileiro, predominantemente no futebol.

A dor de suportar ataques racistas não é tudo que acomete o atleta. Uma inaceitável inércia das autoridades legais nos casos de racismo os aflige igualmente. Praticamente não há punição. Mas a História tem seus personagens de luta vitoriosos, a despeito do descaso oficial.

A vida de Melânia Luz dos Santos é emblemática da resistência dos atletas negros brasileiros, ainda mais virtuosa quando protagonizada por uma mulher negra. Trata-se de vencer o duplo preconceito – raça e gênero. Os feitos de Melânia estão ricamente descritos na tese acadêmica denominada “Olimpismo negro: uma antologia das resistências ao racismo no esporte por atletas olímpicos brasileiros” (2021), de Neilton de Sousa Ferreira Júnior, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

Melânia nasceu em São Paulo em 1928 e foi expoente do esporte nas décadas de 1940 e 1950. Atleta do São Paulo Futebol Clube, do Clube Tietê e da seleção nacional, ela foi uma das melhores velocistas e saltadoras da sua geração, tendo representado o Brasil nos Jogos Olímpicos de Verão de Londres, em 1948.

 Assim escreveu Ferreira Júnior em seu trabalho: biografias como a de Melânia “demonstram que o esporte, enquanto domínio da exceção e da celebração da sociedade concorrencial, estabelece barreiras ideológicas que fazem da discriminação um processo normal e quase natural à sua sociabilidade, obrigando as atletas a desenvolverem estratégias distintas de inserção e cultivo da presença nesse contexto. O mérito, por exemplo, acaba por se apresentar como um valor importante dentro da ambiguidade que lhe é peculiar. Embora a igualdade de concorrência e o mérito sejam as mais caras das ilusões a sustentar o esporte moderno, funcionam como um princípio moral capaz de suspender, ainda que provisoriamente, os juízos de valor que não estão imediatamente relacionados à performance física”.

As considerações do acadêmico significam que, quando a atleta negra sai do espaço privado para ser protagonista em grandes eventos públicos, um imaginário mobiliza-se para preservar o status quo, tentando interditá-la.

No São Paulo Futebol Clube, por exemplo, Melânia estava entre os chamados “atletas militantes” ou “atletas associados”, cuja presença era aceita por seu talento. Mesmo carregando no peito o brasão do clube, ela não podia frequentar suas dependências sociais fora dos treinamentos e das competições. Tudo em conformidade com os estatutos da instituição.

Indagada sobre as condições em que atuava, Melânia dizia perceber o racismo, mas sentia-se protegida por seu desempenho nas pistas de atletismo. São palavras dela: “Esse preconceito ao negro, você sabe, sempre teve, mas para ir pra lá, treinar bastante, e em outros estados que a gente também ia, ficava tudo assim englobado (sic)… e não fica tanto assim…”.

Melânia Luz foi uma desportista de destaque internacional. Antes de ir aos Jogos de Verão em Londres, em 1948, foi vice-campeã sul-americana, no Rio de Janeiro, do revezamento 4×100 e dos 200 metros rasos. Em 1950, sagrou-se campeã sul-americana do revezamento 4×100, vice-campeã dos 200 metros rasos e terceira colocada dos 100 metros rasos em Lima, no Peru.

Ela deixou o esporte de alto rendimento antes dos 25 anos, seguindo como competidora veterana e ganhando títulos e recordes nacionais e internacionais. Em 1998, despediu-se definitivamente do esporte, aos 70 anos. Antes de falecer, em 2016, declarou: “O negro hoje eu acho que é mais atrevido, porque se ele quiser ir fazer, ele vai lá e faz. Pode o branquinho estar ao lado dele, ele vai e faz”.

Bolsonaro e seu apê na Papudinha

Marcelo Camargo / Agência Brasil.

Paulo Henrique Arantes

O chororô dos bolsonaristas sobre as condições carcerárias do seu criminoso-líder é refutável por qualquer ginasiano minimamente esclarecido, basta recorrer à clareza solar. Se essa for insuficiente, recorra-se aos dados. O World Prison Brief – base de dados internacional especializada em sistemas prisionais, considerada uma das principais referências mundiais sobre encarceramento – registra que o Brasil possui cerca de 900 mil pessoas privadas de liberdade no sistema prisional e capacidade oficial para apenas 490 mil vagas, o que significa ocupação de cerca de 135 % da capacidade projetada.

Já a plataforma Geopresídios,do Conselho Nacional de Justiça, informa, com base em inspeções de 1.836 unidades prisionais, uma taxa média de ocupação de 150,3 %, ou seja, as prisões amontoam cerca de 1,5 vez mais pessoas do que a capacidade oficial das unidades inspecionadas. Os presos vivem espremidos.

Jair Bolsonaro está preso após condenação por cinco crimes, tendo sido antes detido por tentativa de fuga: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado pela violência e ameaça grave ao patrimônio da União, deterioração de patrimônio tombado. Na Papudinha, o pluricriminoso ocupa sozinho um apartamento em que poderiam viver confortavelmente três pessoas, desfruta de atenção médica 24 horas por dia e come a comida que é preparada na residência da família. A “cela” em que Jair Bolsonaro resta interno possui quarto, sala de estar, cozinha equipada, banheiro e área de serviço.

A realidade dos presos que não foram perseguidos por Alexandre de Moraes é um pouco pior. Por exemplo, uma casa de detenção em Pernambuco, com capacidade para 950 pessoas, chegou a abrigar 6.469 detentos — mais de 680 % acima da capacidade oficial.

É verdade, Jair Bolsonaro é ex-presidente da República, não é um preso comum. Não crê, este jornalista, que ele, mesmo pluricriminoso, devesse estar sob risco iminente de ser assassinado por outros presos, sobre os quais já confessou não ver problema em “colocar um em cima do outro” na falta de vagas prisionais. De todo modo, o apê da Papudinha constitui um presente e tanto.

É estarrecedor ver idólatras de Carlos Alberto Brilhante Ustra afirmarem que Jair Bolsonaro está sendo torturado. Os adeptos do pau-de-arara são mesmo uns caras-de-pau.

Torturados há, de fato, no sistema carcerário brasileiro. Bolsonaro não é um deles. Eles, os torturados, suportam falta de saneamento básico, ventilação precária, umidade excessiva a favorecer o desenvolvimento de doenças. Infestação por pragas – ratos, insetos- e falta de itens de higiene pessoal. Racionamento ou acesso muito limitado à água para beber, lavar ou usar banheiro. Em alguns presídios, internos têm de usar baldes ou recolher água várias vezes por dia.

Assistência médica insuficiente também os tortura: clínicas prisionais são subdimensionadas, há falta de medicamentos e dificuldade logística para levar detentos a hospitais. Altíssima incidência de doenças infecciosas completa o quadro torturante: segundo a ONG Conectas, muitas mortes nos presídios são causadas por doenças provocadas ou agravadas pelas condições das celas. No apê da Papudinha não acontece nada disso.

Toffoli, o titubeante defensivo

Walter Campanato / Agência Brasil.

Por Paulo Henrique Arantes

Titubear pode até significar hesitar por cautela, mas o verbo aplica-se à perfeição a procrastinações decorrentes de incapacidade decisória – o segundo caso caracteriza o chamado titubeio defensivo. Os titubeantes defensivos, por inaptidão ou alguma razão inconfessável, não raro tomam as decisões erradas e veem-se obrigados a revê-las. Um manual básico de psicologia ensina: “Pessoas excessivamente titubeantes nas decisões tendem a apresentar um conjunto de traços psicológicos relativamente bem descritos na psicologia clínica. Importante frisar: não se trata necessariamente de um transtorno, mas de um estilo decisório que pode variar de leve a bastante incapacitante”.

Inadvertidamente, o manual básico consultado descreveu o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de extensa capivara no campo dos titubeios defensivos e, consequentemente, de revogações das próprias decisões. O titubeante defensivo é um despreparado, por isso quase sempre volta atrás quando é obrigado a decidir ou quando decide impulsionado por ansiedade decorrente do medo.

Aos casos concretos.

 

Em 14 de janeiro,Toffoli determinou que bens e materiais apreendidos em operação da Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master fossem lacrados e mantidos no STF, sob custódia da corte.  Em 15 de janeiro, reviu a decisão e ordenou que o material apreendido fosse enviado à Procuradoria-Geral da República para análise imediata. Por que a primeira decisão? Por que a segunda?

 

No mesmo caso Master, Toffoli já havia decidido e voltado atrás quanto àquela esdrúxula acareação e até quanto ao próprio andamento da investigação: ele negou um pedido de busca pela Polícia Federal em endereços relacionados a Daniel Vorcaro,  porém  reconsiderou a negativa, autorizando as buscas após manifestações da PF e da PGR.

 

Os titubeios defensivos e as reconsiderações – sempre depois de más repercussões – fazem parte da trajetória de Dias Toffoli no STF. Há um caso emblemático, que envolveu Flávio Bolsonaro.

 

Em outubro de 2019, então presidente do STF, Toffoli havia determinado que a Unidade de Inteligência Financeira (UIF, antigo Coaf) disponibilizasse relatórios de inteligência financeira sigilosos(RIFs) para o Supremo, sem pedido de autorização judicial específica. Poucos dias depois, após receber dados e respostas da UIF, ele revogou a decisão, afirmando que a corte não acessou os relatórios e anulando a sua própria ordem para a UIF fornecer os dados. Essa mudança ocorreu no contexto de discussão sobre o uso desses relatórios em investigações, incluindo casos relacionados a Flávio Bolsonaro.

Toffoli também já votou a favor da execução antecipada de penas; depois passou a votar contra. Mais tarde defendeu uma posição intermediária (prisão após segunda instância apenas em certos casos). Por fim, alinhou-se à vedação geral.

Definitivamente, se a segurança jurídica depender de magistrados como Dias Toffoli, estaremos fritos. O pior é quando titubeios e idas e vindas ocorrem não por cautela ou correção de equívocos, mas por pressões externas ou temor de que ligações perigosas sejam escancaradas.

Na prática, Trump pode ordenar ataque nuclear sem consultar ninguém

Por Paulo Henrique Arantes

Uma situação em que o presidente dos Estados Unidos pode, por iniciativa própria e isolada, determinar um ataque nuclear é quando se detecta outro ataque armado, este acionado contra o território americano. Imagine-se um estado de beligerância extremo entre Rússia ou China e Estados Unidos, com o país de Vladimir Putin ou o de Xi Jinping lançando mísseis contra o país de Donald Trump. Haverá muito pouco tempo para responder com contundência a tal agressão, por isso o presidente está pré-autorizado a determinar sem consultar ninguém uma retaliação nuclear. Mas o que se tem, na prática, é um mero protocolo de boa conduta para tais casos.

Quem nos contou esses detalhes litúrgicos foi o jornalista brasileiro que melhor compreendeu o aparato bélico disponível no mundo, Roberto Godoy, sempre pronto para ajudar colegas pouco informados sobre o tema. Godoy nos deixou em 2024 e é uma pena não podermos ouvi-lo sobre o risco nuclear no segundo mandato de Trump.

O presidente dos Estados Unidos tem uma “sombra” sempre por perto. Seu cerimonial, em todas as situações, é montado de tal forma que esse militar, o “sombra”, portando uma mala com os códigos de ataque, esteja a não mais que 25 metros do presidente. Diferentemente do que o cinema costuma mostrar, não se exige a identificação da íris do presidente para realizar o procedimento. O militar abre a mala – o presidente detém o código -, quebra o selo de segurança, o presidente dá a ordem e o ataque começa.

Suponha-se que Trump decida atacar com armas nucleares outro país numa situação não tão emergencial como a narrada no primeiro parágrafo deste artigo. O presidente possui um elenco de autoridades a serem consultadas antes, mas não tem obrigação legal de fazê-lo. Ele pode ignorar os assessores de segurança nacional, de segurança internacional, o secretário de Defesa. O protocolo recomenda que essas autoridades, se convocadas, dirijam-se ao bunker da Casa Branca e não saiam de lá enquanto o processo não terminar.

Os Estados Unidos são uma superpotência bélica como nunca houve na história da civilização. Godoy nos disse em 2017: “A diferença de capacidade é tão grande, que os Estados Unidos, provavelmente, com uma estratégia já montada, façam algo bem antes de um ataque nuclear. Um ataque nuclear teria implicações políticas tremendas – não é à toa que os únicos ataques nucleares feitos até hoje tenham sido no fim da Segunda Guerra Mundial e, se você levar em conta o tamanho daquelas armas, o iniciador de uma bomba de hidrogênio atual equivale à bomba de Hiroshima”.

Nosso colega não presencia o comportamento de Trump neste 2026, que começa sombrio. Se presenciasse, é possível que a cautela que aventou fosse descartada. As ameaças desta semana de Trump ao Irã são aterrorizantes. O que vem depois das bombas MOP de 14 toneladas que atingiram instalações profundas de enriquecimento de urânio iranianas em 2025?

No auge da Guerra Fria, as duas superpotências – Estados Unidos e União Soviética – poderiam destruir a civilização, num ataque nuclear total mútuo, 36 vezes. Houve então as discussões para redução de armas, veio o fim da União Soviética, o desmantelamento de arsenais, uma negociação para reduzir o número de ogivas – e diminuiu muitíssimo. E o que acontece hoje? Trump e Putin podem destruir a civilização 16 vezes.

Se forem disparados ao mesmo tempo apenas os mísseis que se encontram em submarinos nucleares, o mundo acaba, mas não de uma hora para outra. Vai demorar alguns anos. Num dado momento cairá a “chuva negra” (como aconteceu em Hiroshima e Nagasaki) em diversos lugares, aumentarão exponencialmente os casos de câncer, as mutações por causa da radiação. O fim será mais doloroso do que rápido.

Nenhum economista tem a coragem de Maria da Conceição Tavares

Por Paulo Henrique Arantes

Os tecnocratas costumam ser irritantes, a despeito de às vezes serem necessários. O debate econômico no Brasil, ao menos o que é publicado pela imprensa, irrita por se dar predominantemente entre tecnocratas da área econômica de formação ortodoxa, aos quais se somam tubarões do mercado financeiro. Temos economistas heterodoxos brilhantes, desenvolvimentistas de vasta produção acadêmica, mas a mídia restringe-se aos herdeiros intelectuais de Milton Friedman, ícone da economia desumana.

Hoje, os tecnocratas incrustrados na burocracia estatal rezam pelas cartilhas do Banco Mundial, do FMI, da OCDE, do BID. A ortodoxia é o paradigma de referência para a maioria deles. Esse fato é constatável por levantamentos de formação acadêmica, análise de trajetórias profissionais, estudos sobre circulação de elites ou um simples olhar para as decisões de política econômica.

Certa, certíssima, estava Maria da Conceição Tavares, que nos deixou em 2024, aos 94 anos. A espirituosa economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutora pela Universidade de Paris / Sorbonne e professora da Unicamp, cutucava com tanta perspicácia a ferida tecnocrática-neoliberal que acabou se tornando deputada federal pelo PT de 1995 a 1999, tendo antes sido uma das vozes econômicas mais influentes durante a redemocratização, leia-se governo Sarney. Na Câmara, falou poucas boas.

“A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos. […] Uma economia que diz que primeiro é preciso estabilizar, depois crescer, depois distribuir é uma falácia e tem sido uma falácia, pois nem estabiliza, nem cresce de forma consistente e não distribui. Esta é a história da economia brasileira desde o pós-guerra. Se você não se preocupa com a justiça social, com quem paga a conta, você não é um economista sério, você é um tecnocrata”, ensinou Conceição, para estupefação de inúmeros adeptos da doutrina de “primeiro, fazer o bolo crescer”.

Sua “homenagem” aos tecnocratas viria em frases como esta: “Se você não se preocupa com a justiça social, com quem paga conta, você não é um economista sério. Você é um tecnocrata”. A economia como matéria humana, não um amontoado de projeções matemáticas, era por ela reconhecida e transmitida a partir de máximas como “A economia deve servir à vida humana e não o contrário” ou “Ninguém come PIB — come alimentos”.

Seu pensamento foi bem resumido em participação no programa Roda Vida, da TV Cultura, em 1995: “A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está ocorrendo no mundo inteiro: uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria. E isso está ocorrendo até no Norte, não é só no Brasil não — nos Estados Unidos, na França e na Alemanha. Isto, para mim, não é economia. Isto é coisa de tecnocrata alucinado que acha que está tudo ok, e não está nada ok.”

Corajosa, sincera, irreverente.

Em 1974, Maria da Conceição Tavares foi presa no Dops, como era corriqueiro entre acadêmicos não alinhados à ditadura. O então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, antagonista intelectual dela, mas ainda assim um colega de profissão, interveio perante o presidente-general-ditador Ernesto Geisel por sua soltura, com sucesso. Ao encontrar-se com Simonsen depois disso, suas palavras foram estas: “Olá, Mário, tudo bem? Nem vou agradecer porque você não fez nada mais do que sua obrigação”.

Sempre é hora de lembrar Maria da Conceição Tavares. E de constatar que nossos quadros atuais não possuem nem uma faísca do seu brilho.

Dark Triad é o nome do mal que acomete Donald Trump

Por Paulo Henrique Arantes

Um médico chamado Frank George publicou nas redes sociais que o comportamento de Donald Trump tipifica pessoas que sofrem de demência frontal temporal (DFT), um tipo de degeneração neurológica bastante diferente do Alzheimer, mas ainda assim um quadro demencial. Alterações bruscas de humor e crença verdadeira em mentiras seriam alguns dos indicativos da DFT. A mídia repercutiu a avaliação do Doutor George.

Este jornalista tem especial curiosidade por doenças neurológicas ou psiquiátricas, e conta com ótima fonte na área. Receosa de perseguições em solo americano, já que viaja sempre aos Estados Unidos, nossa fonte preferiu preservar o anonimato (alô, Malu Gaspar!), mas cravou em off: Trump está acometido pela Dark Triad, e não por alguma modalidade de demência

Narcisismo, maquiavelismo e psicopatia, essencialmente, compõem a Dark Triad, ou Tríade Sombria.

Os acometidos pela Dark Triad apresentam impulsividade e insensibilidade afetiva, além de absoluta falta de empatia. Tendem a manipular ou instrumentalizar relacionamentos. Buscam sempre atenção e mais e mais poder.

 “I’m a very stable genius”, disse Trump repetidas vezes para descrever sua própria capacidade e sanidade mental, mesmo diante de críticas generalizadas. Essa afirmação de superioridade exagerada e necessidade de autoafirmação é um indicativo clássico de narcisismo em análises populares e acadêmicas. O narcisismo é a mais gritante face da Dark Trial. Frases como “Only I can fix it” ou variantes em discursos de campanha refletem a crença de ser excepcional e indispensável.

Insultos pessoais a jornalistas, como chamar uma repórter de “piggy” (gordinha) e outras ofensas diretas durante coletivas de imprensa atestam falta de empatia e hostilidade interpessoal em situações de confronto.  Em interações diretas e públicas com adversários, Trump historicamente usa adjetivos depreciativos e motivos pessoais em detrimento de debates factuais, algo que linguistas interpretam como agressividade retórica.

Propagar declarações factualmente incorretas ou exageradas sobre crises, dados sociais ou segurança pública, mesmo depois de refutados por fatos concretos, é conduta diária de Trump – e também dos seus bajuladores bolsonaristas. Não se trataapenas de erro factual, mas de um padrão de insistência em narrativas convenientes à própria posição, algo que estudos sobre a Dark Triad relacionam à manipulação e ao maquiavelismo social.

Não nos esqueçamos da repetição estratégica de teorias da conspiração ou de fraude eleitoral, incluindo a narrativa de que a eleição de Joe Biden foi “roubada” – como a de Lula, aqui -, apesar de múltiplos sistemas judiciais e agências independentes terem rejeitado tais alegações, tática destinada a manipular percepções e mobilizar apoio político mediante desconfiança institucional.

Olhar o comportamento de Donald Trump é deparar-se com um caso típico de Dark Triad, a tríade sombria.

Venezuela de Vichy

Por Paulo Henrique Arantes

Este jornalista aventou a possibilidade de Delcy Rodríguez e outros da cúpula madurista terem sido cooptados pelo imperialismo americano, oferecendo pouca ou nenhuma resistência contra ataque que sequestrou Nicolás Maduro e, após um brevíssimo manifesto de indignação, tendo proferido um discurso covarde e bajulador entendido por alguns como estratégico. Enquanto a ex-vice acomoda-se na cadeira presidencial, Donald Trump segue de Washington avisando que tomará para si o petróleo venezuelano e com ele fará o que bem entender.

Suspeitar de que Delcy Rodríguez e outras lideranças tenham traído Maduro rendeu a este jornalista, por parte de stalinistas, a patética classificação de “agente da CIA”. Sim, pois estaria o colunista “fazendo o jogo” dos capitalistas do Norte e cevando desavenças entre os camaradas bolivarianos. Alertamos os missivistas: não possuímos tamanho poder, e se o possuíssemos o usaríamos para espantar a nefasta influência americana da América Latina.

Paira no ar um odor de concertação a envolver o governo americano e a cúpula estatal venezuelana. A docilidade com que Delcy e seus liderados ouvem as recomendações de manter o juízo feitas por Trump revelam um grupo de revolucionários de araque. Ou seriam simplesmente traidores? O tempo dirá.

Impossível resistir à comparação entre a Venezuela de Delcy e a França do marechal Philippe Pétain (foto), colaboracionista do Reich alemão e líder da chamada França de Vichy, administrador da Zona Livre francesa durante a Segunda Guerra Mundial e que envergonha até o hoje os verdadeiros franceses.

Em junho de 1940, a França foi rapidamente vencida pelas tropas alemãs. Um armistício foi assinado com Hitler, que dividiu o país em duas partes – Zona Ocupada (norte e litoral atlântico, sob controle direto da Alemanha), e  Zona Livre (sul da França, governada por um governo francês com sede na cidade de Vichy). Esse governo passou a ser conhecido como França de Vichy.

O regime foi chefiado pelo marechal Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, que recebeu poderes quase absolutos e aboliu a Terceira República, instaurando um regime autoritário. A França de Vichy colaborou ativamente com a Alemanha nazista, não apenas por imposição militar, mas por escolha política. Implantou um governo autoritário, conservador e nacionalista, com o lema “Trabalho, Família e Pátria” em oposição ao lema republicano “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Em 1942, após o desembarque aliado no Norte da África, a Alemanha passou a ocupar toda a França, esvaziando qualquer autonomia de Vichy. O regime entrou em colapso com a libertação da França em 1944, liderada pela Resistência e pelas forças aliadas. Após a guerra, líderes de Vichy foram julgados. Pétain foi condenado à morte por traição, pena comutada para prisão perpétua.

Esperamos que Delcy Rodríguez não se torne uma espécie de Pétain latino, e que um possível colaboracionismo da Venezuela com o imperialismo americano não venha a acontecer de modo tão franco e trágico. Já as semelhanças entre Donald Trump e Adolf Hitler estão a cada dia mais nítidas.

Delcy Rodríguez: covarde ou traidora do chavismo?

Frederico Parra / AFP.

Por Paulo Henrique Arantes

Ainda está-se no campo das conjecturas, como a que levantamos em artigo anterior: a de um acordo de capitulação entre Nicolás Maduro e Donald Trump para evitar que terremoto ainda pior atingisse a Venezuela e seu presidente.  Passados dois dias do ataque, há sinais de que a vice-presidente venezuelana,  Delcy Rodríguez, ora “presidente-encarregada”, cumpriu um jogo de cena inicial ao discursar contra a invasão e o sequestro, revelando agora disposição oportunista para um governo de “colaboração” com os Estados Unidos.

Diante da violação absoluta da soberania venezuelana, do sequestro do seu presidente e de um discurso de Trump informando que os Estados Unidos “administrariam” o país a partir de então, inclusive apossando-se na mão grande das reservas petrolíferas, como pode Delcy proceder à tamanha genuflexão?  Pode ser por medo ou cautela, afinal ela foi pessoalmente ameaçada. Porém, tal comportamento não casa com sua história ou personalidade.

Fieis escudeiros costumam ceder à tentação de traição quando se vislumbram no posto do líder. Fato é que a sugestão de parceria com os Estados Unidos feita por Delcy Rodríguez é chocante. Carrega aspecto e odor de traição ao regime chavista, de cujo mérito não se trata aqui.

A repórter Janaína Figueiredo, em O Globo, relatou fatos recentes indicativos de um voo solo de Delcy. Ela foi a negociadora do último contrato da Venezuela com a petrolífera americana Chevron, o qual, segundo analistas, reflete a capacidade dela de fazer concessões em nome das boas relações. Seu nome estaria sendo aceito pela Casa Branca por suas conexões com o setor petrolífero internacional.

Note-se que o último pronunciamento da “presidente-encarregada” não foi apenas cauteloso, mas subserviente e bajulador: “Estendemos um convite ao governo dos Estados Unidos para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do Direito Internacional, e para fortalecer uma coexistência comunitária duradoura. Nosso país aspira viver sem ameaças externas, em um ambiente de respeito e cooperação internacional. Priorizamos avançar para relações internacionais equilibradas e respeitosas entre os Estados Unidos e a Venezuela, baseadas na igualdade soberana e na não interferência”.

As palavras de Delcy Rodríguez caberiam à perfeição na boca de Javier Milei.

Atenção: Maduro pode ter feito acordo de capitulação com Trump

Getty Images.

Por Paulo Henrique Arantes

Os Estados Unidos – violando todas as normas do Direito Internacional, passando por cima do Conselho de Segurança da ONU, que aos poucos vai se tornando instância decorativa, desprezando seu próprio Parlamento, a quem cabe autorizar a invasão de outros países – bombardearam Caracas e capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa.

Atenção, especialistas em ações desse tipo: não há notícia de derramamento de sangue durante o sequestro do presidente e da primeira-dama da Venezuela, nem sequer de reação bélica contra a captura, ainda que fosse insuficiente para impedir um rapto pelas forças americanas. Enquanto as circunstâncias do “sequestro” não forem plenamente desvendadas, a aparência é de que se tratou da captura sem reação de um presidente dentro do seu próprio país.

Um aspecto que precisa ser lembrado.  Houve sinais recentes de flexibilização por parte Nicolás Maduro frente às ameaças de Donald Trump, uma certa disposição para “negociar”. Os presidentes podem ter chegado a uma espécie de acordo em que se preservasse a vida do venezuelano e de sua família.  Se algo desse tipo aconteceu, deverá ficar evidente nas próximas horas, quando o governo americano terá de informar onde e como está detido o chefe de Estado retirado do seu país. Veremos uma cena real ou uma encenação?

Em entrevistas recentes, Maduro defendeu a necessidade de diálogo “com fatos em mãos” e mostrou uma retórica menos explosiva, sugerindo conversas com o governo americano.  Há relatos de que membros do alto escalão venezuelano, como a vice-presidente Delcy Rodríguez, teriam aventado com intermediários opções de transição de poder sem Maduro, propondo soluções alternativas para Washington.


Essas iniciativas indicam a busca por um plano B dentro do regime venezuelano para reduzir a pressão externa, algo que poderia ser considerado parte de uma estratégia de flexibilidade interna, estratégia que pode ser ter sido levada a cabo no dia de hoje.